Arquivo por categoria Marcelo Carvalho

Não se vá D´Alessandro

Os grandes jogadores brasileiros foram aprendendo a jogar bola driblando a fome, a falta de perspectiva de vida e os buracos da rua de chão batido. Foram aprimorando a habilidade correndo descalços nas ruas de paralelepípedo os campos gramados ou mesmo os pisos de parquet,eram realidades distantes.

Os craques do lado de lá do Rio do Prata têm histórias parecidas com as nossas em se tratando da infância pobre e desnutrida. A diferença está na nossa imensidão de favelas de onde nem todos os moleques podem emergir e tirar de lá seus pais e irmãos. Muitas vezes a dificuldade também está na cor da pele de nossos gênios da bola, afinal, a sua maioria tem a tez escura, a cor negra de seus pais e a descendência africana, escrava e pobre de quem ganhou a liberdade sem o menor amparo para viver.

Os craques de lá, como os de cá, tem outra característica comum: a canela fina. Nasceram quase todos magros, mas, nem por isso, sisudos. São garotos pobres, mas de alegria incomum. Alguns rebeldes, outros boêmios.

Temos aqui, no Sport Clube Internacional, um exemplo destes craques. Um menino que não cresceu se olharmos sua estatura, mas um homem capaz de entrar em uma briga por sua família, seus filhos e sua equipe. Este menino hoje homem, não nasceu brasileiro, nem gaúcho e muito menos Colorado. Mas quando aqui chegou foi saudado como craque pelo que já tínhamos assistidos pela televisão.

Andrés Nicolás D’Alessandro vestiu no lado de lá as cores vermelho e branca do River e talvez por isso seja tão identificado com o nosso manto alvirubro. Andrés não nasceu torcedor do Inter, mas colocou nosso brasão na cabeça, feito tatuagem. D´Alessandro, o menino pobre do bairro de La Paternal, tem uma habilidade incomum na perna esquerda e como tantos outros craques do passado, uma capacidade gigantesca de estar com seu nome vinculado a rebeldia.

Neste ano de 2010 não temos no Beira-Rio nenhum craque capaz de chamar a responsabilidade do jogo para si. Não temos ninguém que a mídia sul-americana destaque tanto quanto este hermano chamado de “D’Ale” pela nação Colorada.

El Cabezon pode não ser o gênio que desfila classe e elegância pelos gramados, pode não ser o jogador que desequilibra em todos os jogos, mas é o melhor atleta que hoje veste nosso manto sagrado. É ele e somente ele que pode dar o “la boba” e deslocar a coluna dos adversário. É ele que pode ter o lampejo da jogada magistral, o passe em profundidade ou aquele toque que deixa até nosso zagueiro Índio cara a cara com o goleiro. É ele que os azuis temem quando o microfone anuncia seu nome. Afinal, Nicolás D’Alessandro fez gol em quase todos os clássicos. E lá naquele GreNal que vencemos de goleada, 4 a 1, foi ele o destaque, o maestro, o cérebro. Na Argentina ganhamos do Boca como poucos o fazem, e quem foi o diferencial? Ele, o menino nascido no River.

Pois é, mas mesmo com toda essa referência dentro e fora dos gramados – Qual menino Colorado, não idolatra D’Alessandro? – querem vender nosso craque para pagar os investidores. Querem vendê-lo para pagar o salário de um treinador. Ora se Andrés for embora, quem vai vestir a camisa 10 e ser capaz de carregar nossa esperança e de vencer mais uma Libertadores?

No te vás D’Ale! Fica ao menos para ser mais um guerreiro Colorado neste sonho do Bi da Libertadores.

Marcelo Carvalho – Porto Alegre/RIO GRANDE DO SUL

Tags:

Feliz Aniversário – 101 anos de pura emoção

Era noite de quarta-feira e a cidade pulsava agitada e tensa. Assim também estava meu coração desde o momento em que abri os olhos pela primeira vez naquela manhã. Eu caminhava solitário em meio à multidão, trazia em uma das mãos uma bandeira e ao adentrar o estádio senti minhas pernas bambearem e meu coração acelerar. Sozinho eu não estava, afinal ao meu lado uma multidão de homens e mulheres caminhavam aflitos, eufóricos e nervosos. Sentiam no peito o mesmo medo que eu senti, e no pensamento somente um desejo: a vitória.

Minutos depois, talvez horas, eu estava enrolado na bandeira e dos meus olhos lágrimas vertiam em abundância, o choro era incontido. Eu soluçava, sentia o coração tocar as costelas em desenfreada batida. Eu sofria. Chorava qual criança e não escondia o meu choro daquelas mais de cinquenta mil pessoas que estavam por perto. Um homem chora sim, e eu chorei, sem a menor vergonha. Chorei sem ter dor, chorei de medo e angústia. Chorei para ter sorte e com muita força me mantinha de pé.

Tempos depois regressei aquele gigante de concreto tão parecido com as arenas da antiga Roma. Neste dia eu estava só e o gigante vazio não rugia. Em uma das mãos o mesmo pano que em outra noite escondeu meu rosto enquanto eu soluçava. Sentei e lembrei dos tempos de menino em que ali estive com minha mãe e ela segurava forte minha mão. Depois com meu pai, meus primos e amigos. Vou lembrando das tardes de domingo, das noites de quartas-feiras e novamente uma lágrima furtiva escorreu por meu rosto.

Não lembro o dia em que me tornei Colorado, não lembro da primeira camiseta que ganhei, não lembro desses fatos. Mas lembro da vez primeira em que me vi vestido como um jogador de futebol. Eu estava com a camiseta do SPORT CLUBE INTERNACIONAL, com a camiseta alvi rubra de gola branca. Eu negro como a noite, me imaginava ser o Paulo Roberto Falcão, com seus cachos loiros a correr pela grama verde do estádio Beira-Rio. E eu ali no espelho, pronto para sair na rua, me encarava cheio de orgulho pensando ser o “Falcão”.

Daquela manhã até hoje se passaram trinta e cinco anos. Hoje não quero ser nenhum jogador de futebol famoso, me orgulho em ser apenas torcedor do INTERNACIONAL. Lembrei que com seis anos, em mil novecentos e setenta e nove, comemorei o título de campeão brasileiro sem entender bem o que se passava, mas com a imensa alegria de ir para a rua de bandeira na mão, saudar os carros que passavam buzinando meu time.

Hoje, o INTER, completa cem anos e aquele sonho de menino, de ver meu time ser o melhor do planeta, aconteceu e eu pude ver. Vi, vibrei e chorei com o título de “Campeão do Mundo” conquistado no Japão. E não pense que isso foi fácil, ganhamos daquele que todos diziam ser a maior e melhor equipe do mundo. Mas o meu INTER liderado pelo capitão Fernandão venceu o Barcelona e alegrou milhões de colorados desconhecidos como eu.

O INTER não tinha o Figueroa de capitão, e seu cotovelo de gladiador; não tinha Falcão, e sua elegância no meio campo; também não tinha o príncipe Jajá, esse sim eu podia ser, afinal, tínhamos a mesma cor de pele e o mesmo cabelo encaracolado. Mas tinha alegria dos dois moleques: Pato e Luis Adriano; a raça do zagueiro Índio e a garra de outros tantos guerreiros que lutaram por aquele título, para muitos desacreditados, menos para nós COLORADOS.

Como dizem os gringos que hoje vestem nosso mando “jogamos a morrer” e vencemos. Glória ao Sport Clube Internacional e seus 101 anos de lutas e conquistas!

Hoje vivemos em tempos de paz sem gladiadores combatendo em arenas, mas toda vez que saio de casa e levo comigo meu pano vermelho e branco me sinto um guerreiro. Meu peito se infla e sinto força em meus pulmões para gritar e incentivar por noventa minutos o meu time. O meu INTER. O meu sentimento é que, se fosse necessário, me envolveria na bandeira alvi rubra e seria um guerreiro a lutar até a morte contra os inimigos que tentam menosprezar aqueles que são da minha mesma família, da FAMÍLIA COLORADA.

É tempo de paz, são tempos de paz, mas ao meu INTER eu gostaria de dizer que seria mais um guerreiro voluntário a invadir Roma, o Egito, a Azenha e o lugar que for. Levando comigo o brasão Colorado no peito, a bandeira no ombro e o sentimento de lutar por um amor, por um time, uma nação.

Ao INTERNACIONAL, com carinho agradeço por existir e o saúdo por seus 101 anos. Aos meus pais e minha família, agradeço por me fazer COLORADO.

Marcelo Carvalho – Porto Alegre/RIO GRANDE DO SUL

Tags: , , , ,