Não é só o nosso futebol! 

 

As paixões são passadas de geração em geração e formam, ao final de uma vida, base para o exercício do amor mais puro e verdadeiro. A verdade é que, muitas vezes, o tecido criado entre duas pessoas, a partir do compartilhar de um sentimento, é forte suficiente para aquecer para sempre, para sustentar relacionamentos gastos pelo tempo, retomar carinhos esquecidos, arrancar um sorriso do outro, que apenas está ali ao teu lado.

A paixão por um clube de futebol, pelo esporte pode ser este elo, da corrente da vida. Aprendi a acompanhar futebol, gostar de ir ao estádio, amar o Inter, com meu pai.

Antes bonitão, que passava os fins de semana grudado no rádio philips com capa de couro ( pra não estragar), hoje o pai definhando… Ainda prefere o rádio, mesmo com a TV digital à sua frente e todos canais esportivos à disposição. É assim porque é habito. Porque não enxerga mais. Porque segundo ele o futebol está tão sem graça, pragmático e feio, que o rádio ajuda a imaginação a dar ritmo as partidas cansativas. Ja alguns anos é assim.

Nesta  quarta feira me peguei nervosa diante da TV, para acompanhar o jogo que poderia colocar novamente o Inter na série A. Decidi fazer isso ao lado dele, que me ensinou esta paixão e que nada sofreu ao saber que o Inter ” caiu” para a B do brasileirão em 2016. ” Ah, pois parece que agora inverteram né. Palhaçada isso. Ora! Os melhores na chave B e os piores na chave A… Mas no fim cruza tudo não é assim?”  Meu pai confuso pelas doenças mentais, acaba por criar uma história menos ruim para cada coisa que o entristece e vive esta nova história como se fosse verdade.

O ano inteiro passou sem que falássemos muito de futebol e eu nem sei porque resolvi correr para o lado dele para ver Oeste e Inter.

Besteira. Claro que sei porque. Trata-se de um amor profundo, que a cada trombada reatou apoiado no tecido costurado pelo futebol, facilitando convivência e reafirmando laços de respeito, carinho e muita aprendizagem.

Então, ele deitado, como sempre, falando daquele jeito que só eu consigo entender, prejudicado por  tantos anos brigando contra doenças e açoitado por tantos remédios, me disse. ” Filha não liga TV se for ruim ouvir o rádio, mas estes caras aí não entendem nada.” Ri e não liguei o rádio e baixei o som da TV. Quando me dei por conta estava eu narrando o jogo pra ele. Notei que ouvia com atenção e as vezes, as rugas do rosto se misturavam num sorriso tímido ou num quase choro trancado por um suspiro que se repetiu até o fim. Perguntei se queria que eu parasse. Ele resmungou alguma coisa, com dificuldade virou pro lado e eu continuei. Mais para conter meu nervoso do que para faze-lo entender as jogadas. Até que ele soltou: ” Mas Adriana, tu desaprendeu ou o Enio Andrade errou? Como que deixou Gilson Porto no banco para por este tal  de  Póquer. Veio da base este ai?” Ficou claro que ele me escutava e refazia a história misturando épocas diferentes e que realmente nos alegraram. Nada respondi e segui até o fim, tentando melhorar a dicção para ele entender Pótker.

Quando a partida terminou simplesmente desliguei a TV com medo das entrevistas e uma possível constrangedora comemoração. E ele quase dormindo: ” Ganhamos? Ah! Não tem pra ninguem!”

Chorei. Pelo futebol medíocre. Chorei de alívio pelo retorno a elite, e tambem de medo do futuro. Chorei por ele, pela falta que ele ja me faz. Chorei pela incapacidade que o Futebol tem de alegrar como fazia antes. Pela certeza de que o Inter será, de qualquer jeito, nosso tecido eterno de boas lembranças, companhia, parceria.

Fiquei olhando pra ele que mal se mexe e entristeci pensando no olhar ingênuo que voltou a ter. Como criança. Porém sem brilho. Olhando sempre pro escuro procurando ouvir quem lhe conforte. Assim esta nosso futebol, o futebol do Brasil. Sem brilho. O Inter vai na mesma balada, se não pior, esperando uma luz , alguém que lhe coloque em paz.

Ainda assim o futebol e o Inter me fizeram, de novo, parar. Olhar, sentir que ele ainda não se foi. Não voltará mais para a série A, eu sei. Também nunca saiu de lá!

Seja como for estamos  de volta. E onde  estivermos, NADA VAI NOS SEPARAR.

Saudações coloradas!

Adriana Paranhos!

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Adriana Paranhos

4 comments

  1. jaldemir Candido dos Santos
    jaldemir Candido dos Santos

    Parabéns Adriana pelo conforto levado ao Velho Pai. Não tenho filhas, somente filhos. Se pudesse escolher não teria, como não tive. Mas o teu exemplo faz repensar o que posso ter perdido. Poderia ter pelo menos uma. Parabéns Adriana por permitir-lhe a permanência da saudade – ” o amor que fica”. Parabéns por deixá-lo aquecido pelas grandes lembranças. Desnecessário oferecer o circo de horrores que vivemos. Embora não tenha sido tão macabro pois apesar de ” Tudo” chegamos a meta prioritária duas rodadas antes SEM DEPENDER DE TAPETES… HOJE O QUE IMPORTA É QUE RETORNAMOS. Já perdi grandes campeonatos jogando muito bonito! Cumprimos o Regulamento. O que interessa agora é o imediato inicio para todo o Clube do Planejamento de 2018! Errar é humano, mas… Abraço!

  2. Assiti com a minha filha de 15 anos, que recentemente realizou o sonho dela de ir ao Beira Rio assistir um jogo do inter, foi no jogo contra o ceará em que fomos derrotados, na volta de minha filha brinquei com ela que a mesma era pé fria, no primeiro jogo no estadio uma derrota, ela me respondeu- Pai o que valeu foi eu ter realizado meu sonho. Voltando ao jogo contra o Oeste, ao término do jogo ela gritou; vamo pai, vamo, e eu meio entorpecido pelo resultado respondi- vamo onde filha?? ELA; vamo pra carreata, vamo comemorar a volta pra série A; Aí falei, calma, calma, escuta, vc tá ouvindo algum buzinaço, alguém gritando de felicidade, (aqui minha cidade é pequena e moro ao lado da avenida principal)ela parou escutou e olhando pra mim, báh pai que coisa, será que o resultado do jogo foi tão ruim??? Aí expliquei á ela que como resultado foi ótimo, mas desempenho, time em campo PÉSSIMO, aí voltei ao jogo dela em que a mesma realizou o sonho apesar da derrota, e disse o resultado de hj foi só termos acordado do pesadelo, que se não mudar um monte este pesadelo irá voltar ano que vem.

  3. Dorian R. Bueno
    Dorian R. Bueno

    COLORADOS, SEGUE A MINHA ANTEPENÚLTIMA CRÔNICA NA SÉRIE B!!!

    Mesmo sendo abençoado por Deus diariamente, e um otimista torcedor Colorado, talvez um projeto de escritor, ainda sem dinheiro no banco, acredito que seja o momento de virar o disco e tentar buscar novos horizontes para as minhas palavras.

    Lamento para alguns ou alegria de outros, que por motivo de não ter mais nada interessante para escrever sobre o time do Internacional, este será meu antepenúltimo texto postado aqui neste BLOG VENCEDOR em 2017.

    É um desafio diário ter muitas inspirações e aguardar à hora certa para poder escrever e compartilhar por aí…

    Penso que foi ótimo para um escritor anônimo como eu, poder ter a companhia de todos vocês para o meu crescimento espiritual e intelectual, porque ser poeta, escritor num país como o Brasil, é uma grande benção de DEUS que se renova diariamente.

    Sempre escrevi sem magoar ninguém, e isto para mim é maravilhoso, é como comemorar muitos GOLSSS do nosso INTERNACIONAL que ficaram somente nos nossos tremendos sonhos nesta Série B, que está ficando para trás.

    Vivo democraticamente através deste lindo caso de amor que eu tenho com as palavras, mas, cansei de escrever sobre a saga COLORADA na Série B, ainda bem que subiu mesmo sem jogar nada.

    Muito obrigado a todos pela paciência comigo.

    Abs. Dorian Bueno – Google+Plus, POA, 16.11.2017

  4. Alô você Adri!

    A analogia é perfeita. A pessoal mais triste porque é lamentavelmente um avanço que não queremos mas que inevitavelmente acontece. Passaram ou passarão, todos nós.
    O alento é entendermos que na parte futebol tem solução, será? Quando vejo que o campeão brasileiro da série A, joga só aquilo, que não se tem vontade de vê-lo jogar e mesmo assim tirou 10 pontos de vantagem sobre o segundo colocado chego a duvidar que se tenha solução para aquilo que um dia chamamos de esporte das multidões.
    Coloradamente,
    Melo

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